quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Simón Rodríguez

Trechos da Obra "Memórias do Fogo - Vol 2: As Caras e As Mácaras" de Eduardo Galeano; nestes, aqui expostos, fala-se sobre Simón Rodríguez, pedagogo e filósofo, e suas idéias sobre educação e a dificuldade da aceitação da mundança desta, por parte da sociedade.

1826

Chuquisaca

MALDITA SEJA A IMAGINAÇÃO CRIADORA

Simón Rodríguez, o mestre de Bolívar, regressou à América. Um quarto de século andou dom Simón do outro lado do mar: lá foi amigo dos socialistas de Paris e Londres e Genebra; trabalhou com os tipógrafos de Roma e os químicos de Viena e até ensinou as primeiras letras em um povoado de estepe russa.

Depois de longo abraço de boas-vindas, Bolívar o nomeia diretor de educação do país recém-fundado.

Com uma escola modelo em Chuquisaca, Simón Rodríguez inicia sua tarefa contra as mentiras e os medos consagrados pela tradição. Chiam as beatas, grasnam os doutores, uivam os cães do escândalo, horror: o louco Rodríguez se propõe a misturar os meninos bem-nascidos com os mestiços que até ontem à noite dormiam nas ruas. O que pretende? Quer que os orfãos o levem para o céu? Ou corrompe-os para que o acompanhem ao inferno? Nas salas de aula não se ouve o catecismo, nem latins de sacristia, nem regras de gramática, e sim o ruído de serrotes e martelos, insuportáveis aos ouvidos dos frades e leguleios educados no asco ao trabalho manual. Uma escola de putas e ladrões! Os que acreditam que o corpo é uma culpa e a mulher um enfeite, gritam aos céus: na escola de dom Simón, meninos e meninas sentam-se juntos, todos grudados; e, o cúmulo: estudam brincando.

O prefeito de Chuquisaca encabeça a campanha contra o tarado que veio corromper a moral da juventude. Pouco depois, o marechal Sucre, presidente da Bolívia, exige de Simón Rodríguez que renuncie, porque não apresentou suas contas com a devida prolixidade.



AS IDÉIAS DE SIMÓN RODRÍGUEZ

"PARA ENSINAR A PENSAR"


Fazem passar o autor por louco. Deixem que ele trasmita suas loucuras aos pais que estão por nascer.

Terá de se educar todo mundo sem distinção de raças nem cores. Não nos alucinemos: sem educação popular, não haverá verdadeira sociedade.

Instruir não é educar. Ensinem, e terão quem saíba; eduquem, e terão quem faça.

Mandar recitar de memória o que não se entende é fazer papagaios. Não se mande, em nenhum caso, uma criança fazer nada que não tenha o seu "porquê" junto. Acostumada a criança a ver sempre a razão apoiando as ordens que recebe, sentirá falta dela quando não a vir, e perguntará por ela dizendo:"Porque?" Ensinem as crianças a serem perguntadoras, para que, pedindo o porquê do que as mandam fazer, se acostumem a obedecer à razão: não à autoridade; como os limitados, nem ao costume, como os estúpidos.

Nas escolas devem estudar juntos os meninos e as meninas. Primeiro, porque assim desde criança os homens aprendam a respeitar as mulheres; e segundo, porque as mulheres aprendem a não ter medo dos homens.

Os varões devem aprender três ofícios principais: construção, carpintaria e ferraria, porque com terrass, madeiras e metais são feitas as coisas necessárias. Dar-se-á instrução e ofício às mulheres, para que não se prostituam por necessidade, nem façam do matrimônio uma especulação para garantir subsistência.

Ao que não sabe, qualquer um engana. Ao que não tem, qualquer um compra.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Movido a energia 100% humana


VIDA URBANA

Roteiro de um bípede que dispensa a gasolina, o álcool, o diesel, o gás e até as passadas para viver e se locomover em São Paulo

Por Maria da Paz Trefaut

Uma densa névoa ainda cobre o sol quando Alexandre Delijaicov sobe a rampa da garagem do edifício onde mora, com sua bicicleta azul de 18 marchas. Há dez anos, ele usa apenas a bicicleta como meio de transporte. Os trajetos variam conforme o dia, numa rotina programada. Hoje, como toda terça-feira, ele vai para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU da USP, onde é professor de projeto.

À primeira vista, Delija, como os alunos se referem a ele, é um homem calmo, de fala lenta e sincopada. Alto, magro, de cabelos pretos bem curtos, tem a fisionomia marcada por óculos retangulares, cuja armação marrom acompanha só a parte de cima das lentes. Quando ele começa a se agitar, o que será perceptível apenas mais tarde, os óculos se inclinam e perdem a simetria no rosto.

A bicicleta de Delijaicov tem um alforje no bagageiro onde ele guarda calças impermeáveis e uma capa, para os dias de chuva. Ele costuma vestir jeans, camisa branca de mangas compridas, com os punhos abotoados, calça tênis de camurça marrom-café e leva uma bolsa de lona preta cruzada no peito. É difícil imaginar que essa seja a indumentária ideal para percorrer sete quilômetros e meio de bicicleta. A maneira de se vestir, no entanto, é a primeira característica que diferencia o professor de arquitetura da maioria dos ciclistas. Para ele, andar de bicicleta não é um esporte; é um jeito de chegar ao trabalho. Necessariamente, ele não pode transpirar ao pedalar: nenhum professor (exceto os de educação física) pode dar aula suando.

Por isso, ele sai sempre cedo, com toda a calma do mundo, quando os carros ainda não ocuparam todas as áreas de estacionamento, modificando a largura das ruas. É seu “exercício diário de desaceleração”, diz. Sobre duas rodas ele percorre de doze a catorze quilômetros, entre ida e volta, e desvenda uma cidade que os paulistanos geralmente não vêem, protegidos pelos vidros dos automóveis e ônibus.

Duas vezes por semana, ele vai de casa, no bairro do Itaim, de classe média alta, para a Cidade Universitária. Nos outros três dias, segue para o escritório de projetos da prefeitura, no Largo do Paissandu, no centro da cidade. Costuma levar de 35 a 40 minutos de porta a porta. As direções são quase opostas, e as condições também: enquanto para a USP o caminho é plano e mais longo, para o centro é acidentado, cheio de subidas.

O professor reconhece que pedala como uma “tartaruga”, e atribui a essa prudência o fato de nunca ter tido um acidente. Seus roteiros são fixos e evitam as grandes avenidas. Ele conhece o nome de cada rua por onde passa, mantém sempre a direita, na mesma mão dos carros, e segue todas as normas do Código de Trânsito Brasileiro. Também inventa gestos que, para a maioria, não fazem muito sentido. Como, por exemplo, o braço estendido à esquerda para indicar “não me cortem, vou seguir em frente”.

Como foram testados, os hábitos minuciosos de Delijaicov têm razão de ser. A camisa branca serve para refletir a luz, e as mangas abotoadas, para que qualquer movimentação de seus braços seja bem visível. Nunca ouvir música enquanto pedala é outra de suas normas. “É para escutar os sons da cidade, como canta o Arrigo Barnabé”, diz. Levar o laptop na bicicleta foi um teste que deu errado. Nas duas tentativas, a trepidação danificou a placa de vídeo. Há outra coisa que ele evita a qualquer custo: óculos escuros. “Tenho que captar o olhar do motorista e ele o meu, ele tem que saber que estou olhando para ele”, diz. “Nada substitui o olho no olho na comunicação humana. Você seduz e oprime pelo olhar.” No passado, o professor chegou a usar óculos escuros. Mas se deu conta de que levou um número de fechadas maior do que o habitual. “Pelo olho, você capta o motorista que é cínico, safado – quando você está de óculos escuros, o cara finge que não lhe vê.”

Apesar de tantos cuidados, Delijaicov comete diariamente uma enorme imprudência: não usa capacete. Seu argumento, ou sua desculpa, como ele mesmo reconhece, é que o capacete retira o olhar periférico e um pouco do ouvido, coisas que interferem no “equilíbrio sinestésico”. Mesmo sem capacete, ele não se sente desprotegido. A confiança é um patrimônio que conquistou, e talvez derive do fato de conhecer todos os sinais de trânsito, cruzamentos, ondulações do asfalto, valetas. Por onde anda, cumprimenta as pessoas que, todos os dias, naquela hora, atravessam seu caminho. Os seguranças de terno escuro do Jardim Europa, o carroceiro da Rua Ibiapinópolis, perto do Shopping Iguatemi, um ou outro ciclista com roupas simples que, como ele, também vai ao trabalho, só que provavelmente para uma construção.

A travessia das alças que dão acesso à ponte sobre o Rio Pinheiros é um dos maiores perigos no seu caminho para a USP. Não há sinal e, em função das curvas, às vezes é impossível ver os carros se aproximarem, em alta velocidade. Ninguém pára para dar passagem aos que aguardam na faixa de pedestres, e o único jeito é atravessar correndo, numa brecha eventual. É o que fazem todos: o cara de bicicleta, quem está a pé e a mulher de casaco vermelho, com uma criança no colo e outra pela mão.

Se dependesse do professor, os motoristas seriam reeducados à força. Um decreto federal suspenderia todas as carteiras de habilitação, como se fossem portes de armas. “A frota paulistana de cinco milhões de automóveis está nas mãos de uma minoria”, sustenta. “São eles que alimentam esse poder mesquinho e deixam resignada a maior parte da população. Olhe bem quem faz fila dupla na porta das escolas, sentadas em carros blindados: são pessoas acima do peso, que deveriam estar numa academia.”

Delijaicov já alterou percursos devido a ruas residenciais que foram fechadas com grades e portões. Quando toca nesse tema, ou fala de injustiças, o professor se empolga. Não adianta perguntar o que quer que seja. Uma pergunta sobre sua percepção da cidade como ciclista pode ter como resposta a atitude do Brasil na guerra do Paraguai, os diques da Holanda ou a inutilidade “daquela turminha” de Saint-Germain. “Você vai achar que eu sou um ressentido, mas o nosso horror é esse comportamento do colonizado que ficou com o olhar do colonizador.”

Vista pelos olhos de um ciclista, a percepção da cidade é, sem dúvida, mais dura. A poluição nos trechos mais congestionados, onde há excesso de fumaça e poeira em suspensão, faz o nariz escorrer continuamente. As ruas, mesmo nos bairros nobres, sentidas pelos solavancos do selim são mais esburacadas e remendadas que quando amortizadas pela suspensão de um automóvel. E na orientação que o guidão traça no solo é preciso estar atento para cada obstáculo, o que torna impossível ignorar os sem-teto que dormem na subida das passarelas ou na ponte da Eusébio Matoso. São detalhes de São Paulo que o paulistano motorizado tende a evitar.

A idéia, bem brasileira, segundo a qual a bicicleta é um meio de transporte para pobres, deixa Delijaicov irado. Mas ele mesmo já se acostumou à discriminação. Quando sobe uma das ruas de comércio de luxo da zona oeste, à noite, na volta da faculdade, já nem liga ao ouvir o barulho das portas dos automóveis sendo travadas, à medida que sua proximidade fica perceptível pelo retrovisor.

Numa noite em que voltava da Faculdade de Belas Artes, onde lecionava, a corrente estourou e, sem opção, ele teve que empurrar a bicicleta grande parte do caminho. No meio do trajeto, no Jardim América, um guarda de rua se aproximou dele e falou penalizado: “Pô, amigo, por que você não compra uma motoca?” Um de seus vizinhos também já havia dito à sua mulher: “Fala para o seu marido que não fica bem um professor da USP ir trabalhar de bicicleta”.

Para quem vê de fora, o campus da USP parece um paraíso para os ciclistas. De perto, é nele que o professor atravessa alguns dos trechos mais complicados do seu trajeto diário. As rotatórias são perigosas, e as fechadas, constantes. Quando o sinal fecha, e está próximo a um ponto de ônibus, ele espera pacientemente. É mais um de seus procedimentos: “Nunca ultrapasso um ônibus num sinal, ou na hora do embarque e desembarque: alguém pode descer, e aqueles segundos podem ser fatais”. Enquanto pedala pela praça da reitoria, Delijaicov explica que “o traçado da cidade universitária é de um urbanismo rodoviarista, feito para o automóvel”, exatamente como Brasília. “É uma ‘pseudocidade-jardim’, que usa argumentos de parques urbanos, mas que no fundo não passa de uma falácia.”

Além da FAU, o professor ciclista trabalha no Departamento de Edifícios Públicos, divisão da prefeitura onde arquitetos e engenheiros projetam de crematórios a escolas. É um trabalho, coletivo e anônimo, do qual se orgulha muito. Outra marca no currículo é sua tese sobre a navegação fluvial urbana. “Muitos me acham um louco ou um romântico, com um pensamento típico dos séculos XVIII e XIX.” Pelas demandas da tese, Delijaicov passou quinze anos visitando a Holanda periodicamente. Lá, aprendeu muito sobre o ciclismo urbano. Sobre o funcionamento prático do que chama “trilhos urbanos”, sistema que prevê a integração de diferentes meios de transporte e o incentivo público a todos eles, em detrimento do automóvel.

Na contramão da ideologia brasileira, os países europeus agregam cada vez mais a bicicleta aos meios de locomoção. O aquecimento global, as conseqüências do uso do automóvel e os congestionamentos constantes das grandes cidades são as razões óbvias. O exemplo mais recente vem de Paris, onde uma frota de bicicletas públicas cinza-chumbo tomou conta das ruas, no mês passado, e começou a mudar a paisagem da cidade. Na primeira fase do plano Vélib, orquestrado pela prefeitura, foram colocadas à disposição dos parisienses 10.648 bicicletas em 750 estações. Por um custo irrisório é possível andar sobre duas rodas a distância desejada – os primeiros 30 minutos são de graça. O objetivo da municipalidade de Paris é que, além de servir para pequenos trajetos, a bicicleta seja conectada a outros transportes. Providencialmente, grande parte dos bicicletários foi construída junto às estações de metrô, trens e aos pontos de ônibus.

O plano chega a Paris depois de ter obtido bons resultados em Lyon, onde foi implantado em 2005. A meta é que até o final deste ano a capital francesa tenha 20 600 bicicletas da prefeitura posicionadas em 1 451 pontos “Vélib”, ou seja, um a cada 300 metros – quatro vezes mais que o número de estações de metrô. Os franceses já falam na revolução das bicicletas como marco do novo “transporte coletivo individual”. Com nomes e apelos publicitários diferentes, sistemas semelhantes foram introduzidos em Viena, na Áustria, Gijon e Córdoba, na Espanha, e Bruxelas, na Bélgica. Na França, já existe em Rennes e está em fase de lançamento também em Aix-en-Provence e Marselha. Há muito as bicicletas públicas fazem parte da paisagem urbana na Holanda e na Dinamarca.

Delijaicov só pode ver com bons olhos iniciativas como essas. Especialmente porque a mais recente vem da França. “Nunca olhamos para o nosso vizinho, mas uma experiência urbana parisiense pode ter um impacto positivo sobre toda a América Latina,” diz ele. “Basta dizer que aqui ao lado, em Bogotá, fizeram uma rede de ciclovias para valorizar o passeio público, e ninguém no Brasil deu a menor atenção.”

Embora não goste de ser visto como um ciclista militante, o professor está envolvido em trabalhos de extensão, na própria faculdade, para o estudo e a viabilidade de ciclovias urbanas. Desde que ele e a mulher venderam um dos carros da família, e transformaram o outro numa “espécie de adorno da garagem”, cada vez mais ele se confessa seduzido pelas vantagens de desfrutar o espaço público.

Aos 45 anos, e com dez de experiência nos pedais, Delijaicov tem esperança na mudança de comportamento da sociedade com relação aos ciclistas, e sente uma espécie de gratificação por fazer sua pequena parte todos os dias. Há um grupo de discípulas que seguem seus passos no ciclismo. Algumas vão em frente, outras desistem depois de um tempo, por considerar que São Paulo não é receptiva à bicicleta. É um argumento que não o demove de buscar novos adeptos. “Você também pode mudar e largar o automóvel, basta querer!” – insiste com os alunos, ou com qualquer outro interlocutor com quem cruza pelas rampas da faculdade. “O que é um século na história das cidades? Nossas cidades são como nós, obras inconclusas, não passam de acampamentos – acampamentos de refugiados que não sabem pra onde ir. Só nós podemos nos opor a essa mercantilagem vil e peçonhenta do espaço urbano. O inferno não são os outros, somos nós.”

Quando fala de questões urbanas, o professor é assim mesmo, grandiloqüente. Depois, silencioso e atento a tudo, segue solitário pelas ruas de São Paulo com sua bicicleta holandesa, sem grife, onde se lê apenas “on the road”. Se você o acompanhar, por uma manhã que seja, nunca mais vai olhar os ciclistas da mesma forma.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Consumo Logo Existo

Por Frei Betto

Ao visitar a admirável obra social do cantor Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse. O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima
de sua utilidade.

Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.

É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós."

O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em Cinderela. Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder.

Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de "com mercê", com troca.

Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.

Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói." E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Colar de Histórias

Pronunciamento proferido ao receber o titulo de primeiro "Cidadão Ilustre do Mercosul" em 04 de Julho de 2008


Por Eduardo Galeano*


A nossa região é o reino dos paradoxos.

Brasil, tomemos alguns casos:

Paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;

paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e pela poliomielite, nascido para a infelicidade, foi o jogador que mais alegria deu em toda a história do futebol;

e, paradoxalmente, já completou cem anos de idade Oscar Niemeyer, que é o mais novo dos arquitectos e o mais jovem dos brasileiros.


* * *


Tomemos o caso da Bolívia: em 1978, cinco mulheres enfrentaram uma ditadura militar.

Paradoxalmente, toda a Bolívia riu delas quando iniciaram a sua greve de fome.

Paradoxalmente, toda a Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.

Eu conheci uma dessas cinco lutadoras. Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Numa assembleia de operários das minas, todos homens, ela levantou-se e fez todos calarem-se.

- Quero lhes dizer isto - disse. O nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. O nosso inimigo principal é o medo, e levamo-lo dentro de nós.

E anos depois reencontrei Domitila em Estocolmo. Expulsa da Bolívia, foi para o exílio, com os seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, cuja liberdade admirava, mas eles davam-lhe pena, tão solitários que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E dava-lhes conselhos:

- Não sejam tolos - dizia-lhes. Nós, lá na Bolívia, juntamo-nos. Ainda que seja para lutar, unimo-nos.


* * *


E quanta razão tinha.

Porque eu digo: Existem os dentes, e não se juntam na boca? Existem os dedos, e não se juntam na mão?

Juntamos: e não apenas para defender o preço dos nossos produtos, mas também, e sobretudo, para defender o valor dos nossos direitos. Estão juntos, embora de vez em quando simulem rixas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os demais. A sua riqueza come pobreza, e a sua arrogância come medo. Há bem pouco tempo, tomemos este caso, a Europa aprovou a lei que converte os imigrantes em criminosos. Paradoxo dos paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta nos narizes dos invadidos, quando retribuem a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a ser comidos e viver com medo.

Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio das suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas, somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos adestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não nos querermos, a cuspir no espelho, a copiar em lugar de criar.


* * *


Ao longo de toda a primeira metade do século XIX, um venezuelano chamado Simon Rodríguez, andou pelos caminhos da nossa América, no lombo de mula, desafiando os novos donos do poder:

- Vocês - clamava don Simon - vocês que tanto imitam os europeus, por que não os imitam no mais importante, que é a originalidade?

Paradoxalmente, por ninguém era ouvido este homem que tanto merecia ser ouvido.

Paradoxalmente, chamavam-no de louco, porque tinha o bom senso de acreditar que devemos pensar com a nossa própria cabeça, porque tinha o bom senso de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que aquele que não sabe, qualquer um o engana e aquele que não tem, qualquer o compra.

Porque tinha o bom senso de duvidar da independência de nossos países recém-nascidos:

- Não somos donos de nós mesmos - dizia. Somos independentes, mas não somos livres.


* * *


Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi paradoxalmente assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia um centavo a ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de importação.

Paradoxalmente, após cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem. Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que lhes deu nome, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani ainda falam os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.

Em guarani, ñe' significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.

Se te dou minha palavra, dói-me.


* * *


Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e deu-se.

Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio do governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele tinha dito:

- Eu, daqui, não saio vivo.

Na história latino-americana, é uma frase frequente. Foi pronunciada por uns quantos presidentes que depois saíram vivos, para continuarem a pronunciá-la. Mas, essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.

Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile chama-se, ainda, Onze de Setembro. E não tem esse nome pelas vítimas das Torres Gémeas de Nova York. Não. Leva esse nome em homenagem aos verdugos da democracia no Chile, com todo o respeito por esse país que amo, atrevo-me a perguntar, por puro senso comum: Não seria hora de mudar o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?


* * *


E saltando a cordilheira, pergunto-me: Por que será que Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar a nascer?

Paradoxalmente, quanto mais o manipulam, quanto mais o traem, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.

E pergunto-me: Não será porque ele dizia o que pensava, e fazia o que dizia? Não será que por isso continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito raramente se encontram, e quando se encontram não se saúdam, porque não se reconhecem?


* * *


Os mapas da alma não têm fronteiras, e eu sou patriota de várias pátrias. Mas, quero culminar esta pequena viagem pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui por perto.

Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua a ser meu compatriota mais perigoso. Tão perigoso é que a ditadura militar do Uruguai não pôde encontrar uma única frase sua que não fosse subversiva, e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que ergueu para ofender a sua memória.

A ele, que se negou a aceitar que a nossa pátria grande se rompesse em pedaços;

a ele, que se negou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra os seus filhos mais pobres, a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico esta distinção, que recebo em seu nome.

E termino com palavras que lhe escrevi há algum tempo:


1820, Paso del Boquerón. Sem voltar a cabeça, você afunda no exílio. Vejo-o, estou o vendo: desliza do Paraná com agilidade de um lagarto e afasta flamejando o seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e perde-se na mata. Você nos diz adeus à sua terra. Ela não acreditava. Ou, talvez, você não sabe, ainda, que parte para sempre.

A paisagem fica cinza. Você vai, vencido, e a sua terra fica sem alento.

Devolver-lhe-ão a respiração os filhos que nascerem, os amantes que chegarem? Os que dessa terra brotam, os que nela entram, serão dignos de tristeza tão profunda?

Sua terra. Nossa terra do sul. Você lhe será muito necessário, don José, cada vez que os ambiciosos se lastimarem e a humilharem, cada vez que os bobos a considerarem muda ou estéril, você fará falta. Porque você, don José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela pronunciou.



* Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da América Latina, Memórias do fogo e Espelhos/Uma história quase universal.

A criança que calou o mundo por 5 minutos

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Noam Chomsky: Socialismo para os ricos

Regina Zappa e Cláudia Antunes, Jornal do Brasil, 24 de novembro, 1996

Para muita gente, o pensamento do lingüista e ativista político americano Noam Chomsky pode soar como um punhado de teorias conspiratórias. Mas para o tranqüilo professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), considerado um dos mais importantes intelectuais vivos, a realidade é trivial e não há nada de novo nas relações entre os poderosos, que controlam a população através da força ou da propaganda, e os destituídos de poder. Com naturalidade, ele afirma que a propalada onda de democratização não passa de um ataque à democracia, que o que se supõe ser o aumento do comércio mundial trata-se na verdade de transações internas entre as corporações e sua subsidiárias e que, dentro da lógica de que o lucro é privado mas o custo é público, hoje existe socialismo, mas para os ricos.

A propaganda, segundo ele, é a arma dos ricos para controlar o comportamento das pessoas em sociedades onde não cabe o uso da força. "Nos EUA, as pessoas são bombardeadas com propaganda e publicidade todos os dias na televisão, desde a infância. O ideal da vida social é você e seu aparelho de TV". Chomsky fez duas palestras no Rio, na UFRJ, no começo da semana. Na quarta-feira foi para São Paulo e ainda irá a Brasília e Maceió. No Copacabana Palace, onde se hospedou no Rio, falou com exclusividade ao Jornal do Brasil.

Este ano os EUA assistiram ao mais baixo comparecimento às urnas da sua história. O que está acontecendo?

A eleição é decidida entre as pessoas mais ricas. Os outros são espectadores. Esta eleição foi interessante porque a participação foi a menor da história. A razão disso é que as pessoas não estão interessadas na política. Mas este é justamente o objetivo do neoliberalismo. É eliminar a população do processo de decisões e pôr tudo nas mãos do poder privado. É como ter tiranias. É basicamente a imposição de uma espécie de totalitarismo, um totalitarismo privado. Quanto mais você diminui a participação popular e bota as decisões na mão de bancos, corporações privadas, FMI, etc., menos espaço fica para as pessoas tomarem decisões. E elas perdem o interesse.

Por que não votam para tentar mudar isso?

Votar em quem? Para entrar na arena política, você precisa de muito dinheiro. Se você está baseado num poder privado, claro que ele terá o dinheiro. A única maneira de as pessoas influírem é formando uma tremenda organização entre elas, juntando sindicatos, organizações populares. Mas os EUA são uma sociedade muito atomizada. As pessoas são muito sozinhas. É interessante a comparação com o Chile, onde estive há pouco. Um dos efeitos mais fortes da ditadura militar foi destruir a sociedade civil. As pessoas estão isoladas. Não confiam nas outras, não ajudam as outras. Todos lá dizem isso, você pode ver isso na sociedade. Foi uma grande vitória do totalitarismo. Destruir a esperança das pessoas. Há três anos estive numa conferência em El Salvador sobre o que chamam de "cultura do terror" na América Latina. Eles diziam que as ditaduras tiveram um efeito de longo prazo, que foi domesticar as aspirações da maioria, de modo que eles nem chegam a pensar mais em se opor aos interesse dos poderosos.

Mas os militares chilenos até hoje levam a fama de ter feito um bom trabalho na economia...

Isso é uma mentira. Veja os fatos. Nos anos 70, a economia chilena estava de fato crescendo. Em 1982, ela entrou em colapso e o governo teve que assumir tudo. Naquele ano, o governo tinha mais controle sobre a economia do que (Salvador) Allende tinha. Então começaram a dar tudo de novo para o setor privado. Mas nem tudo. Olhe: o cobre é o maior produto de exportação chileno, e é nacionalizado. Então a idéia de que os militares chilenos liberalizaram a economia é ridícula. Eles tentaram liberalizar, mas foi um desastre. Há um setor da sociedade que está muito rico, como aqui, mas 20% estão completamente à margem de tudo. A pobreza é maior do que em 1972. Mas o que eu estava dizendo é que os efeitos da ditadura de Pinochet no Chile também foram alcançados nos Estados Unidos, só que sem terror.

De que maneira?

Através de outras técnicas de marginalização e atomização, incluindo a imensa ofensiva da indústria de relações públicas e propaganda para privatizar os interesses. Nos EUA, um em cada seis dólares é gasto em marketing. Então, se você vê televisão, é bombardeado com publicidade e propaganda todo dia, desde a infância. As crianças passam muitas horas todo dia vendo TV, então elas estão sendo formadas pelos ideais da cultura de consumo, em que sua única preocupação é você mesmo e sua máxima escolha é entre um par de sapato ou outro. A participação da sociedade civil está escolhendo, o contato entre pais e filhos caiu 45% desde os anos 60. As pessoas estão sozinhas. A unidade da vida social é você e seu aparelho de TV. Isso é o ideal. O mundo das relações públicas e dos negócios quer criar uma sociedade na qual você interaja com seu aparelho de TV ou seu computador. Durante os anos Reagan, os sindicatos foram criminalmente atacados.

O senhor não acha que as pessoas estão se vendo menos porque hoje elas têm que trabalhar mais para manter sua renda?

Nos EUA, desde os anos 80, os salários reais estão estagnados ou em declínio. Isso continuou mesmo na atual fase de recuperação. Marido e mulher têm que estar ambos no mercado de trabalho para manter a família. Temos os pais trabalhando até 50 horas por semana e não há, como na Europa ou no Japão, um sistema social de apoio à família. Então as crianças ficam sozinhas e vêem televisão. Há um estudo interessante da Unicef sobre as sociedades ricas, feito em 1993, mostrando que na sociedade industrial desenvolveram-se dois modelos - um nipo-europeu e outro anglo-americano. Este último, na descrição do estudo, se traduzia numa verdadeira guerra contra as crianças e famílias. Os efeitos disso são marcantes.

Se você olhar as estatísticas de pobreza infantil, violência contra as crianças, crime juvenil, drogas, você encontra uma incidência muito maior nos EUA e Inglaterra. Os dois são países que, até certo ponto, aplicam o modelo que eles tentam impor ao resto do mundo. Não o aplicam totalmente, porque sabem de seus efeitos destruidores, mas o aplicam pelo menos contra os pobres. E os pobres submetidos a esse tratamento ficam como os pobres do Brasil. É claro que é um país muito mais rico, então não é exatamente igual, mas estruturalmente é. Isso é um fenômeno mundial, efeito do programa neoliberal.

Como se rompe com esse modelo?

Primeiro as pessoas têm que libertar suas mentes. Ontem eu li The New York Times aqui no hotel e me chamaram atenção dois artigos na seção de Economia, um sobre o Japão e outro sobre os Estados Unidos. O artigo sobre o Japão dizia que o governo japonês está estudando um grande programa, ao custo de 1 bilhão de dólares, para a indústria de semicondutores, que perdeu sua competitividade. O artigo não diz porque essa perda de competitividade, mas o fato é que o governo Reagan - um dos mais protecionistas da história americana do pós-guerra, apesar de pregar o livre mercado para os pobres - fechou o mercado americano para os semicondutores japoneses, porque eles eram muito baratos, e botou dinheiro público na indústria americana de semicondutores.

O outro artigo descrevia como o Pentágono está mudando suas encomendas da McDonnel Douglas para a Boeing. Parece uma coisa pequena, mas é muito importante, porque a Boeing é o maior fabricante de aviões comerciais, e precisa de subsídios do governo, porque não espera sobreviver no mercado. Nenhuma pessoa rica espera sobreviver no mercado, elas querem ser pagas pelo público. O Pentágono vai construir um novo avião militar para subsidiar diretamente as exportações comerciais da Boeing. Eles estão mudando do complexo militar-industrial para o complexo industrial-militar. Com o fim da Guerra Fria, ficou claro que os gastos militares são mantidos para apoiar os ricos. Antes se fingia que tudo tinha a ver com a defesa do país contra agressões estrangeiras. Então você vê duas nações ricas e ambas dependem do financiamento público. A indústria não sobreviveria sem ele. O lucro é privado, mas o custo é público. Isso é socialismo para os ricos.

Voltando à pergunta...

Então, a primeira coisa que as pessoas têm que fazer é reconhecer que o neoliberalismo é uma fraude total. É neoliberalismo para os pobres, mas proteção do Estado para os ricos. Por isso o Primeiro Mundo é rico e o Terceiro Mundo é pobre. Temos vários séculos de liberalismo. No século 18 a Índia tinha a maior indústria de manufatura do mundo, e a Inglaterra tinha que se proteger da indústria indiana, conquistando-a e destruindo-a. Aplicando o liberalismo à Índia e se protegendo, de modo a se tornar um país industrial rico, enquanto a Índia se transformava em um pobre país agrícola. Hoje nos EUA estão destruindo o sistema de previdência social, impondo o neoliberalismo aos pobres, ao mesmo tempo em que aumentam os subsídios à indústria de alta tecnologia.

O sr. tem esperança?

Claro, por que não? Em todo mundo as pessoas estão insatisfeitas, procurando alternativas, mas houve um certo sucesso na destruição da organização social. Há toda uma cultura de individualização que tem o objetivo de separar as pessoas.A menos que a mídia seja democratizada será muito difícil mudar a cabeça das pessoas. As telecomunicações - a chamada nova fronteira - estão nas mãos do setor privado. Nos EUA, foram distribuídas ano passado entre cinco conglomerados privados, como Disneyworld, PTI. Foi a maior transferência de recursos públicos para o setor privada da história.

O senhor sempre fala do uso distorcido das palavras. O senhor pode nos dar exemplos?

Neoliberalismo é uma delas. Não há nada de novo, é um sistema de dois séculos, por isso os países pobres são pobres. E também não é liberalismo. E esses dois artigos de que falei em The New York Times mostram que é liberalismo para os pobres e não para os ricos. Globalização é outra palavra. Pintam um quadro de que as leis naturais do mercado estejam fora de controle, não há alternativa senão submeter-se a elas. Se você olhar o fluxo de investimento e comércio, ele é praticamente o mesmo de um século atrás. O caráter é diferente, mas a escala é a mesma. Cerca de 70% do comércio é dentro de três áreas: Europa, Canadá e Estados Unidos. Todos esses países têm democracias parlamentares. Se as pessoas pudessem usar o sistema parlamentar, poderiam controlar a globalização. Há um esforço para doutrinar as pessoas nesse sentido.

Pegue a palavra democracia. Fala-se que houve uma onda de democratização em todo o mundo, mas é o oposto, houve um ataque à democracia. É verdade que há mais eleições, mas as eleições têm cada vez menos sentido. Pegue também a palavra comércio: supõe-se que houve um enorme aumento no comércio mundial. Nos EUA, metade do que é chamado comércio são na verdade transações internas das corporações e suas subsidiárias em todo o mundo. Se a Ford Motor Company envia componentes para o México para serem montados por mão-de-obra barata, que enviará o carro de volta aos Estados Unidos, isso é chamado de importação e exportação. Mas não é. É como se alguém tivesse uma loja e passasse uma mercadoria de uma prateleira para outra. Isso é controlado por uma mão muito visível e não pelas leis do mercado. É controlado por instituições totalitárias, que são as grandes corporações. O comércio verdadeiro pode mesmo estar em declínio.

E qual a saída?

Se você olhar a história por um outro prisma, vai ver que tem havido lutas contínuas contra isso que tiveram certo sucesso. As coisas estão muito melhores hoje do que há séculos atrás. Há dois séculos a democracia parlamentar parecia impossível. A democracia pode não ser ideal hoje, mas é muito melhor que o feudalismo. Há 200 anos, parecia que a escravidão era necessária e que não podia haver outra maneira de viver. Hoje nos EUA, o debate é sobre a defesa dos serviços públicos de saúde. Há 30 anos não havia serviço nenhum para se defender. No movimento dos direitos da mulher, por exemplo, houve uma enorme mudança nos últimos 30 anos. O mesmo com as ONGs e os movimentos dos direitos humanos. São lutas populares que têm um efeito e lentamente, através dos tempos, as coisas vão melhorando.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O pé manco da sustentabilidade

por Katerina Volcov

Em dia internacional – festivo ou não – do meio ambiente fala-se muito da Amazônia, das energias renováveis, da preservação da fauna e flora mundiais, dos números do desmatamento, dos países que não assinaram o Protocolo de Kyoto. Mas a principal pergunta é: o que vamos fazer a partir de agora?

Um dos temas discutidos amplamente, é a tal “sustentabilidade” , para os mais íntimos do assunto, é o sistema baseado no tripé: viabilidade econômica, justiça social e preservação ambiental, ou “como fazer para transformar o modelo social em que vivemos para que se torne economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto”.

Nestas últimas semanas, o presidente Lula esteve à frente da defesa do etanol brasileiro, apresentando argumentos para demosntrar que ele não tem relação com a crise mundial dos alimentos. E que é um biocombustível sustentável à medida que é renovável tendo um custo menor de produção do que as plataformas petrolíferas.

Sim, ele tem razão em boa parte do que diz, e não me cabe discutir essas questões aqui. O ponto que realmente me preocupa, e que me parece mais grave, é a insustentável maneira de se produzir e levar o etanol ao mercado estrangeiro, às custas da exploração de um trabalho quase-escravo nas lavouras de cana. Ou seja, nada justo, portanto, nada sustentável, considerando a base do tripé da sustentabilidade.

Segundo dados do relatório da Comissão Pastoral da Terra, o número de trabalhadores explorados subiu de 6930 em 2006 para 8635 no ano seguinte, sendo a região sudeste a que obteve maior expressão nesse acréscimo. Coincidência ou não, é nessa área que estão concentradas as lavouras de cana-de-açúcar.

As péssimas condições de trabalho dos cortadores de cana já foram relatadas inúmeras vezes pela mídia no passado. Hoje, porém, parece que o lado ambiental tem se sobreposto ao social e qualquer ação em prol do meio ambiente é ovacionada sem levar em conta, muitas vezes, o bem-estar social.

Vale a pena recordar que, para que possamos ter realmente um produto sustentável é essencial que as três bases – humana, econômica e ambiental - estejam em equilíbrio e harmonia. Isso quer dizer que o lado humano precisa ser suprido em todas as suas necessidades primárias, o meio ambiente deve ser respeitado e é claro que é essencial sua viabilidade econômica.

É óbvio que, medidas de proteção à Amazônia devem ser observadas e outras novas criadas e fiscalizadas, até mesmo para que o Mato Grosso não avance com suas plantações agroindustriais. Porém, o que é necessário e imprescindível em tempos de obtenção de novas formas de energia, onde um barril de petróleo sai pela bagatela de cerca de US$ 150, é observar a que preço o aspecto humano fica ou não manco na tríade da sustentabilidade.

Afinal, toda essa preocupação deveria ter, em sua essência, o cuidado com as futuras gerações, ou seja, com os seres-humanos. Esquecer deles é como esquecer de si próprio. Portanto, para uma verdadeira sustentabilidade, os mancos que se cuidem.

Katerina Volcov é especialista em desenvolvimento de projetos de comunicação voltados à responsabilidade social.